São Paulo, 4 de agosto de 2020
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Ameaça de uma nova pandemia

01/07/2020

pandemia

Dentre todos os micróbios que nos ameaçam com uma nova pandemia, os vírus causadores de gripe estão no topo da lista. Provocada pelo vírus influenza, a gripe é uma doença desconfortável, que traz febre, tosse, dores no corpo e mal estar. Não é incomum que sintomas tirem a disposição de uma pessoa e deixem tantos outros acamados por alguns dias.

 

Gripe é comum, especialmente no inverno e primavera, mas também em possíveis surtos durante o verão —tal como ocorreu no início de 2020. O influenza possui uma característica peculiar: seu material genético tem oito segmentos, o que favorece mudanças genéticas. A mistura de material genético pode ocorrer sempre que dois vírus influenza infectam uma mesma célula. Por conta disso, sofre mutação com frequência assustadora, muito mais do que observamos no novo coronavírus.

 

Todos os anos aparecem novos vírus influenza. Essas mudanças genéticas costumam ser sutis, mas são capazes de fazer com que os novos vírus consigam ludibriar o sistema de defesa das pessoas. Tanto é assim que a vacina contra a gripe é submetida a constantes adaptações, a fim de que possa nos proteger contra os vírus vindouros.

 

O grande temor surge quando as mutações são maiores. Vírus muito diferentes de seus antecessores conseguem despistar o organismo com mais facilidade e, com isso, a doença pode se tornar mais agressiva e levar a consequências ainda piores. Se desenvolve capacidade de transmissão em humanos, pode levar a uma nova pandemia.

 

Um grande exemplo foi a gripe espanhola, que acometeu o mundo entre 1918 e 1919. Foi um verdadeiro tsunami pandêmico, que levou de 50 milhões a 100 milhões de pessoas à morte.

 

Há outros vírus que ainda assombram a humanidade, capazes de causar gripes com taxas de mortalidade bastante elevadas. Os mais comuns são aqueles transmitidos diretamente de aves, tal como o H5N1, que matou metade de seus infectados, e o H7N9, que tirou a vida de 40% dos doentes. A nosso favor, esses dois vírus ainda não demonstraram habilidade de transmissão de pessoa para pessoa, característica fundamental para o surgimento de uma pandemia.

 

Em 2009, tivemos a gripe suína, a mais recente pandemia antes do novo coronavírus. Com origem identificada na América do Norte, infectou entre 700 mil e 1,4 bilhão de pessoas de janeiro de 2009 a agosto de 2010. O número de mortos pela gripe suína pode ter ultrapassado meio milhão.

 

Seu nome popular veio da adaptação viral, que provavelmente se deu em porcos, onde aconteceu uma das etapas da mistura genética entre os vírus. Suscetíveis à infecção pelo influenza que vêm das aves, os porcos possuem um organismo considerado ideal para que diferentes tipos de vírus se misturem, originando novos descendentes. Esse mesmo processo, vale dizer, também pode ocorrer em humanos.

 

Um estudo de monitoramento do influenza em porcos, na Ásia, publicado na segunda-feira (29), acompanhou o vírus nos animais entre 2011 e 2018 e identificou a existência de um novo vírus: o G4 EA H1N1.

 

Seu nome de batismo tem sentido específico. G4 vem do genótipo 4, que nada mais é que um grupo de sequências genéticas. EA, por sua vez, vem do vírus aviário da Eurásia. Por fim, H1N1 vem da classificação de duas peças da superfície do vírus, chamadas de hemaglutinina e neuraminidase, ambas do tipo 1. Mais do que apelido, é nome e sobrenome.

 

Embora seja capaz de infectar células humanas, ainda não há qualquer caso registrado de infecção pelo G4 EA H1N1 em seres humanos. Sua capacidade de causar doença ainda é desconhecida. A preocupação inicial está nos cuidadores de porcos na Ásia, que poderiam, eventualmente, se infectar por esse novo influenza e, por esta razão, devem ser alvo de contínua vigilância.

 

É preciso observar de perto qualquer caso de gripe entre esses profissionais, além de antecipar, de imediato, protótipos de vacinas que possam preveni-la, caso surja e comece a se espalhar.

 

Se quisermos estar preparados para uma nova epidemia, decorrente destes ou de outros tipos de vírus, a vigilância epidemiológica deve ser perene.

 

Esper Kallás - Médico infectologista, é professor titular do departamento de moléstias infecciosas e parasitárias da Faculdade de Medicina da USP e pesquisador na mesma universidade.



Fonte: Folha de S. Paulo | Portal da Enfermagem

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