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Florence Nightingale: como ela revolucionou nossos hábitos de higiene

07/04/2020

Florence

Nascida há 200 anos, a britânica Florence Nightingale é merecidamente conhecida por ter revolucionado a enfermagem. Sua abordagem para os cuidados de soldados feridos e treinamento de enfermeiras no século 19 salvou e melhorou incontáveis vidas. E suas ideias sobre como se manter saudável ressoam ainda hoje, na medida em que políticos dão orientações oficiais sobre como combater o novo coronavírus.


Por exemplo, embora Nightingale só tenha apoiado totalmente a ideia de que muitas doenças são causadas por microrganismos específicos conhecidos como germes depois dos 60 anos, nos anos 1880, ela tinha muita noção da importância da lavagem das mãos. Em seu livro, Notas sobre Enfermagem (1860), ela escreveu que “toda enfermeira deve ter o cuidado de lavar suas mãos muito frequentemente ao longo do dia. Se lavar o rosto, também, ainda melhor”.


Durante a Guerra da Crimeia (1853-1856), Nightingale implementou a lavagem de mãos e outras práticas de higiene nos hospitais do exército britânico. Esse era um aconselhamento relativamente novo, primeiro divulgado pelo médico húngaro Ignaz Semmelweis nos anos 1840, que observou a diferença dramática que isso provocava nas taxas de mortalidade em maternidades.


A atenção de Nightingale a pesquisas médicas internacionais era só um dos fatores por trás de sua habilidade de fazer intervenções eficazes em saúde pública. Como muitos especialistas em saúde pública de sua idade, Nightingale considerava que o lar era um lugar crucial para intervenções de prevenção de doenças. Esse era o local onde a maioria das pessoas contraía e sofria de doenças infecciosas. (O mesmo é verdade ainda hoje: no surto de coronavírus de Wuhan, entre 75-80% das transmissões foram reportadas em núcleos familiares.)


O livro de Nightingale, Notas sobre Enfermagem (1860), era mais um livro de instrução de saúde pública do que um manual de enfermagem. Ele trazia conselhos para pessoas comuns sobre como manter um lar saudável — especialmente mulheres, de acordo com a visão de mundo daqueles tempos. Havia conselhos diretos sobre tudo, desde como evitar fumaça excessiva em lareiras (não deixe o fogo ficar muito baixo e não exagere no carvão) até o material mais seguro para cobrir paredes (tintas a óleo, não papel de parede).


Nightingale aconselhava as pessoas a abrirem as janelas para maximizar a luz e a ventilação, e eliminar o ar “estagnado, mofado e impuro”. E ela defendia melhorias no sistema de drenagem para combater doenças que vinham da água, como o cólera e a febre tifóide.


Em sua visão, todos os interiores domésticos deveriam ser mantidos limpos. Tapetes sujos e móveis sujos, ela escreveu com uma franqueza característica, “poluem o ar tanto quanto se houvesse um amontoado de esterco no porão”.


As Notas sobre Enfermagem também pediam às “patroas” de cada prédio que limpassem “cada buraco e canto” de seus lares regularmente, pelo bem da saúde de sua família. Mas Nightingale também recomendava uma abordagem mais holística para a saúde. Ela encorajava soldados a lerem, escreverem e socializarem durante a convalescença para não afundarem em chateação e alcoolismo.


Bons dados


Durante a juventude, o pai de Nightingale a apresentou para um estudioso de estatística, naquela época uma nova área acadêmica, e pagou para que ela tivesse um tutor de matemática. Durante e depois da Guerra da Crimeia, Nightingale usou estatística para provar a eficácia de diferentes intervenções.

 

Ela produziu seus famosos diagramas, que demonstravam a alta proporção de morte de soldados causadas por doença, em vez de feridas de batalhas, e se tornou a primeira mulher aceita na Sociedade de Estatística de Londres em 1858.

 

Depois disso, ela desenhou questionários para obter dados sobre questões como as condições sanitárias de estações do exército na Índia, ou a taxa de mortalidade de populações aborígenes na Austrália. O princípio que a guiava era que um problema de saúde só poderia ser enfrentado de forma efetiva se suas dimensões fossem confiavelmente estabelecidas.

 

Em 1857, um ano depois de voltar da Guerra da Crimeia, Nightingale sofreu um colapso severo, hoje atribuído a uma infecção chamada brucelose, também conhecida como febre mediterrânea. Causada por uma bactéria, é transmitida de animais para pessoas, especialmente por produtos lácteos não pasteurizados, e os sintomas incluem dores articulares e musculares, febre, perda de peso e fadiga. Pela maior parte de sua vida depois da doença, ela foi acometida por dores crônicas, frequentemente incapaz de caminhar ou sair de sua cama.

 

Trabalhando de casa

 

Declarada inválida, ela impôs a si mesma uma regra de reclusão mais por dor e cansaço do que por medo de contágio — uma forma de autoisolamento que foi estendido para sua família mais próxima (embora ela ainda tivesse empregados e outros visitantes).

 

Durante os primeiros anos trabalhando totalmente de casa, a produtividade de Nightingale foi extraordinária. Além de escrever Notas sobre Enfermagem, ela produziu um relatório influente de 900 páginas sobre as falhas médicas durante a Guerra da Crimeia, e um livro sobre design de hospital.

 

Não bastasse, ela montou a Escola de Treinamento Nightingale para enfermeiras no hospital St Thomas em Londres, em 1860, um programa de treinamento para parteiras no hospital do King’s College em 1861, além de atuar como conselheira no desenho de vários hospitais novos. Mais para o fim dos anos 1860, Nightingale propôs uma reforma nas enfermarias para transformá-las em hospitais de alta qualidade financiada por impostos; também trabalhou em reformas sanitárias e sociais na Índia. Tudo isso sem sair de casa (embora alguns ministros às vezes fossem a casa dela para reuniões).

 

Dito isso, vale lembrar que o autoisolamento de Nightingale era privilegiado. A fortuna de seu pai, proveniente de juros sobre as minas de Derbyshire, significa que ela não tinha preocupações com dinheiro.

 

Ela morava em uma bela casa em Londres com vários assistentes e serventes para ajudá-la, fazer compras e cozinhar para ela, e não tinha crianças para tomar conta. Todo seu tempo acordada podia ser dedicado a leituras e escritos. Então embora esse seja um momento apropriado para relembrar e celebrar a enorme contribuição que Nightingale fez para a enfermagem moderna e a saúde pública, não precisamos nos sentir tão mal se não conseguirmos alcançar seus alto níveis de produtividade durante o isolamento social.

 

Este texto foi originalmente publicado no site The Conversation.

 

*Richard Bater é pesquisador de pós-doutorado do Departamento de História da Universidade de Nottingham, na Inglaterra 

 

 



Fonte: Galileu | Portal da Enfermagem

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