São Paulo, 29 de março de 2020
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História sexual: mais parceiros, mais câncer?

26/03/2020

parceiros sexuais

Bem-vindo ao Fator de Impacto, sua dose semanal de comentários sobre um novo estudo na área médica. Eu sou o Dr. F. Perry Wilson. Essa semana a história sexual ganhou destaque por causa de um estudo publicado no periódico BMJ Sexual & Reproductive Health sugerindo que o número de parceiros sexuais que você teve está associado ao seu risco de câncer.

 

Confesso: Eu não sou bom em tirar a história sexual. Eu basicamente pergunto se meu paciente é sexualmente ativo ou não, e depois pergunto: “Com homens, mulheres ou ambos?” E pronto. Como nefrologista, gasto mais tempo perguntando quantos anti-inflamatórios não esteroides (AINEs) meus pacientes tomaram do que quantos parceiros sexuais eles tiveram.

 

Mas, de acordo com o estudo publicado no periódico BMJ, o número de parceiros pode ser um novo fator de risco a ser levado em conta. Bem, pelo menos se a resposta que você receber for “mais de 10”.

 

Enquanto você está ocupado contando, vamos entender o estudo.

 

Esta é uma análise do English Longitudinal Study of Ageing, ou ELSA, e eu simplesmente não consigo deixar quieto.

 

Perdão.

 

Ok, 2.537 homens e 3.185 mulheres forneceram informações sobre seus parceiros sexuais e uma descrição completa de sua saúde.

 

Grande ressalva aqui: apenas 67% dos indivíduos do estudo ELSA responderam à pesquisa sobre sua história sexual, e dentre eles, apenas 80% tinham detalhes completos em termos de outros desfechos em saúde – portanto estamos na terra das amostras enviesadas. No entanto, surgiram algumas tendências interessantes.

 

Em média, os homens relataram mais parceiras(os) do que as mulheres. Em geral, ser mais jovem, não ser casado(a) e estar no quintil mais alto ou mais baixo de renda foi associado a um número maior de parceiros sexuais durante a vida.


 

Depois de ajustar para idade, status de relacionamento amoroso e uma série de outros fatores, ter um número maior de parceiros sexuais foi associado a uma taxa de câncer mais elevada entre homens e mulheres, e a uma taxa de “doenças de longa duração” mais elevada entre as mulheres.


 

Por quê?

 

Bem, os autores observaram que existem muitos dados mostrando que ter mais parceiros aumenta o risco de infecção sexualmente transmissível (IST), e algumas IST podem causar câncer (estamos falando de você, HPV). Parece plausível.

 

Mas isso está longe de ser confirmado. Para começar, não sabemos quais tipos de câncer essas pessoas tiveram.

 

Os autores escreveram que há muito poucos casos para fazer uma análise formal por tipo de câncer, mas isso me parece um pouco falso, porque presumivelmente todos os tipos de câncer de pulmão e de mama e outras coisas são apenas ruídos nesse sistema; restringir a análise a tipos de câncer que sabemos que estão associados a ISTs deve resultar em uma forte associação se houver causalidade aqui.

 

Não. Provavelmente, o que estamos vendo aqui não é a sequela a jusante das IST. Estamos vendo nosso velho amigo, o fator de confusão, fazendo uma aparição confusa.


 

Mulheres e homens com história de um maior número de parceiros sexuais tendem a ser diferentes de várias maneiras das pessoas com poucos ou nenhum parceiro sexual. E não dá para ajustar para tudo. O grau de instrução foi uma variável importante não controlada, por exemplo.

 

Apesar disso, você e eu sabemos que este estudo conseguirá achar um jeito de fazer parte de uma aula de educação defendendo a abstinência sexual como única alternativa, ou algum outro esforço puritano para estigmatizar o sexo. E isso não é bom. Um outro artigo com o mesmo conjunto de dados focou nos efeitos do sexo na felicidade dessa mesma população, e você sabe o que aconteceu?

 

Aqueles que tiveram mais parceiros eram mais felizes.

 

Para o Medscape, eu sou Perry Wilson.

 

O Dr. F. Perry Wilson é médico, professor associado de medicina e diretor do Yale's Program of Applied Translational Research. Seu trabalho de comunicação científica pode ser encontrado no Huffington Post, na NPR, e aqui no Medscape. Ele tuita como @methodsmanmd e mantém um repositório de seu trabalho de comunicação no site www.methodsman.com.



Fonte: Medscape | Portal da Enfermagem

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