São Paulo, 25 de março de 2019
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Morre o cardiologista Antonio Carlos Carvalho, que ajudou a reduzir mortes por infarto

10/01/2019

cardiologista

Morreu nesta nesta terça (8), aos 71 anos, o médico Antonio Carlos Carvalho, um dos principais nomes na área de emergência cardiovascular do país. A causa da morte não foi divulgada pela Unifesp, onde atuava como professor titular. A reitoria informou, em um email interno, que o corpo foi cremado e que a cerimônia foi fechada para os mais íntimos.

 

“O professor Carvalho foi um dos cardiologistas mais completos que conheci, exemplo de profissional, dedicado ao paciente, com extrema compaixão. Era excelente professor e ensinou, orientou e estimulou um número enorme de médicos que tiveram o prazer do seu convívio”, diz o cardiologista Fernando Bacal, professor da USP e responsável pelo setor de transplantes do Incor.

 

O cirurgião Fábio Jatene, também da USP e do Incor, conta que conhecia bem o professor Carvalho. “Fomos colegas de diretoria, em um mandato na Socesp [Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo]. Era uma pessoa muito equilibrada, de enorme capacidade, querido e respeitado por todos, uma grande liderança. A comunidade cardiológica brasileira está de luto pela perda de um grande colega.”

 

Nascido em Campinas em 13 de setembro de 1947, Antonio Carlos Carvalho teve infância simples em Leme, no interior paulista, com seus três irmãos. O pai era farmacêutico e a mãe, funcionária pública dos Correios.

 

Seu pai tem uma história digna de ser lembrada: segundo Carvalho contou a este repórter pouco mais de um ano atrás, seu avô foi um grande proprietário rural, muito rico, e que morreu tragicamente, com uma picada de cascavel. Sua avó, que não tinha nenhum documento, acabou sendo despejada da fazenda, junto com seus oito filhos. O pai teve os estudos bancados por um padre de Campinas até entrar na faculdade. Foi observando o pai que desenvolveu interesse pela medicina. Aos 7 anos já preparava injeções e a fazer curativos.

 

Ele amava o campo e tentou de todo jeito fugir da cidade grande. Na hora de prestar vestibular tentou Unicamp, Botucatu (hoje Unesp) e a USP de Ribeirão Preto. Passou em Botucatu, onde também começou a residência em clínica médica, primeiro passo para se tornar cardiologista.

 

Mesmo depois de ganhar uma bolsa do Rotary International para estudar na Universidade da Califórnia, em Davis, ele planejava voltar para Botucatu. E tudo seguia conforme o planejado: ele passou num concurso para trabalhar na faculdade de medicina e antecipou o regresso ao país. 

 

Mas, segundo seu próprio relato, todos os concursos da época foram suspensos e ele acabou vindo para São Paulo junto com a mulher, Teresa. Começou como médico voluntário na Escola Paulista de Medicina (que deu origem à Unifesp), onde conhecia alguns colegas especialmente no departamento de cirurgia. Só depois de alguns anos apareceu a oportunidade de iniciar ali a carreira docente.

 

Começou como professor assistente e, em 1997, tornou-se titular. No começo da carreira dedicou-se ao cateterismo (modalidade de intervenção que, por exemplo, permite a desobstrução de vasos entupidos e a correção de defeitos de válvulas do coração, entre outras) em adultos e bebês.

 

Com o tempo, acabou migrando para a área de UTI, urgência e emergência, dedicando-se às chamadas síndromes cardiovasculares agudas. Ele foi um dos idealizadores da Rede de Infarto, que conseguiu reduzir o índice de mortalidade em até 74% em algumas unidades de saúde. Entre as medidas estava o treinamento de equipes, sistema de transferência rápida de doentes graves e emissão de laudos de eletrocardiogramas a distância.

 

Segundo dizia, o maior gargalo da área ainda é a integração entre poder público, sociedade médicas e unidades de saúde. “Nós temos ótimos profissionais ligados à Sociedade de Cardiologia, mas quem atende lá em Ermelino Matarazzo [distrito da zona leste de São Paulo, distante da região central] não é o cardiologista. Se ninguém fizer essa ponte, o conhecimento não chega na ponta, em quem mais precisa.”

 

Ele, que não teve filhos, se orgulhava da marca que deixava em seus alunos e residentes. “Esse pessoal é a continuidade do que a gente quer fazer, das coisas direitas, corretas. Algumas flores brotam e os lugares vão ficando mais bonitos. Fico feliz de poder ter participado disso.”

 

Uma de suas atividades favoritas era cuidar de um sítio, no interior de São Paulo, onde contabilizou ter plantado, junto com a mulher, mais de 5.000 árvores. Outro hobby era a astronomia. “O Universo é tão incrível, tão grande, com tanta coisa, que, ao observá-lo, ele te torna mais humilde”, disse o médico, que, de criação católica, dizia acreditar em Deus e admirar diversas religiões, como budismo e hinduísmo.

 

Carvalho deixa a esposa, a decoradora Teresa, que também foi atingida com o ônus da medicina. “A grande sacrificada foi a minha esposa”, contou. “Sacrifícios têm que ser feitos. Os médicos mais novos, que estão chegando, precisam dessa orientação: o paciente geralmente está mais necessitado que você. É só por acaso que você está do outro lado da mesa. Hoje o paciente não consegue nem contar a história dele direito —e muitas coisas poderiam ser resolvidas de forma simples, só ouvindo-o.”



Fonte: Folha de S. Paulo | Portal da Enfermagem

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