São Paulo, 20 de setembro de 2019
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Terapia Holística: Reiki

Marcelino da Silva Cavalcante
Enfermeiro com especialização em Antropologia da Saúde e Obstetrícia, docente da Faculdade Mater Dei
mcavalc@gmail.com

16/02/2011

O equilíbrio entre os diferentes componentes do organismo com o meio ambiente foi descrito na Grécia antiga por Hipócrates, que tinha como filosofia que saúde e doença dependiam da perfeita integração mente/corpo/meio-ambiente.

 

Hoje, este contexto de saúde está ligado às Terapias Holísticas/ Complementares/ Alternativas, que são as técnicas que visam uma assistência à saúde do indivíduo, seja na prevenção, tratamento ou cura, considerando-o como mente/corpo/espírito e não um conjunto de partes isoladas. Seu objetivo, portanto, é diferente daqueles da assistência alopática, também conhecida como medicina ocidental, ou em que a cura da doença deve ocorrer através da intervenção direta no órgão ou parte doente.

 

A fundamentação da enfermagem nesta visão holística de ser humano está descrita pelo Conselho Federal de Enfermagem (Cofen) no Parecer Informativo 004/95, mas foi somente dois anos depois que o órgão, meio da Resolução 197/1997, estabeleceu e reconheceu as Terapias Alternativas como especialidade e/ou qualificação do profissional de Enfermagem. Foi a partir daí, então, que o enfermeiro passou a ser reconhecido como terapeuta alternativo/complementar, desde que devidamente concluída a carga horária mínima de 360 horas em cursos reconhecidos em instituição de ensino.

 

Dentro desta visão holística está a prática do Reiki, considerada como uma terapia mental e espiritual, descoberta pelo monge budista, Mikao Usui, no final do século passado, e também conhecida como “energia que cura”. Ela nada mais é do que a aplicação da energia inteligente através da imposição das mãos nos chacras principais. “Na aplicação de Reiki, quando canalizamos a energia, acionamos o sistema nervoso parassimpático, que uma vez ativado vai tornar a musculatura macia e o corpo mais aberto e receptivo, equilibrando e tonificando o organismo”, explica o enfermeiro Marcelino da Silva Cavalcante, especialista em Antropologia da Saúde e em Obstetrícia, docente da Faculdade Mater Dei, no Amazonas, e membro da Câmara Técnica de Atenção a Saúde do Cofen.

 

Tendo em vista que a utilização desta terapêutica alternativa tem se tornado cada vez mais uma opção para o tratamento de diversos tipos de patologias, e sendo este um fértil campo para a Enfermagem, o enfermeiro Marcelino Cavalcante é o entrevistado do Portal da Enfermagem.

 

 

Como o senhor define Reiki dentro do contexto da assistência?

Reiki é definido como uma terapia holística complementar que pode ser aplicada em todos os campos de assistência de enfermagem, tanto na área hospitalar quanto na saúde coletiva.

 

Existe alguma legislação própria para esta prática?

No Brasil não existe ainda legislação que regulamente as praticas holísticas. O que existe são projetos de lei que tentam legislar sobre o mesmo, alguns com desvios de abordagem, como é o caso do projeto de lei da acupuntura, que alguns órgãos médicos defendem que sejam privativos da medicina, odontologia e veterinária. Essa é uma grande discussão ainda para o Cofen se posicionar e garantir o exercício e a pratica da Enfermagem neste campo.

 

Em quais situações o Reiki pode ser aplicado?

O Reiki, como terapia holística que é, pode ser aplicado em qualquer situação ou patologia, assim como todas as outras praticas holísticas. Uma vez que o mesmo atua a nível energético, o equilíbrio deste campo é ativado e somatiza-se no físico, resolvendo as patologias que são os sintomas desse desequilíbrio no campo energético. Na minha pratica, utilizo-o mais na área da obstetrícia, porém, no dia a dia, posso aplicá-lo para diminuir uma dor de cabeça, hipertermia, mal estar ou somente para diminuição do cansaço do dia.

 

O Reiki pode ser aplicado em quais regiões do corpo?

As regiões base de aplicação do Reiki são os sete chacras principais: alto da cabeça – chacra coronário; na fronte – chacra frontal; no pescoço – chacra laríngeo; no peito – chacra cardíaco; no apêndice xifóide do esterno – chacra do plexo; no umbigo – chacra umbilical ou inguinal e o nos órgãos genitais - chacra raiz. Além dos principais, aplica-se também nos chacras secundários: todas as articulações – ombros, cotovelos, pulso, mão, coxas, joelhos, calcanhares e pés. Lembrando que são aplicados nas regiões antero e posterior do corpo (frente e costas). Mas uma aplicação simples pode ser utilizada apenas a cabeça.

 

Após posicionar as mãos, qual é o protocolo a ser seguido?

Depende do nível do reikiano. No nível I, é comum apenas o relaxamento e a intenção de aplicação do reikiano. No nível II e III, são recebidos símbolos que ajudam no centramento do reikiano. Lembrando que só devem aplicar Reiki os iniciados por um mestre, pois caso contrário você aplicará energia sua e não Reiki, e o resultado pode ser uma exaustão de sua energia pessoal, cansaço, sonolência, fadiga, até mesmo desmaio.

Após o centramento, o reikiano “visualiza” a energia Reiki envolvendo-o pelo seu chacra coronário, percorrendo seu corpo, passando pelo chacra cardíaco e saindo pelas mãos e entrando no cliente que pode estar em pé, sentado ou deitado, a posição mais confortável para ambos.

 

Quais são os benefícios obtidos com o Reiki?

O Reiki atua profundamente na pessoa, buscando dissolver a causa de problemas e ampliar a consciência. Por isso, auxilia na cura de desequilíbrios físicos e emocionais; favorece a habilidade de cura natural do corpo; libera bloqueios energéticos e promove relaxamento total; ajuda a eliminar o estresse; limpa o corpo de resíduos tóxicos; ativa as glândulas, órgãos, sistema nervoso e sistema imunológico; diminui efeitos colaterais de tratamentos de saúde e potencializa a ação positiva de remédios. Sua aplicação é ótima antes e depois de cirurgias e em mulheres grávidas, e os bebês também adoram Reiki. Vale acrescentar que o Reiki afeta cada indivíduo de um modo muito pessoal, portanto o resultado do tratamento é determinado pelas necessidades (nem sempre óbvias) da pessoa que é tratada.

 

 

“Reiki afeta cada indivíduo de um modo muito pessoal, portanto o resultado do tratamento é determinado pelas necessidades (nem sempre óbvias) da pessoa que é tratada”

 

 

Há alguma contraindicação?

Não, não há, mas é bom evitar o Reiki em pessoas que estejam anestesiadas porque, como ele limpa as toxinas o efeito anestésico pode acabar antes do prazo estabelecido pelo médico.

 

E ele pode ser aplicado dentro da instituição de saúde, ou seja, no paciente internado?

A aplicação das terapias holísticas é regulamentada na pratica da saúde coletiva por portaria ministerial. Na área hospitalar, alguns exemplos isolados podem ser citados: em consultórios de colegas enfermeiros (tenho o meu, onde aplico Reiki, desde agosto de 2001), em Brasília (a Mestra Maria Tereza Cunha é uma das líderes do Serviço Auxiliar de Voluntários (SAV), o qual desenvolve um projeto de atendimento no principal hospital do Distrito Federal, o Hospital de Base) Na Universidade Federal de Pernambuco, existe um serviço ambulatorial de Reiki em atendimento à população.

 

Como isso é registrado no prontuário do paciente?

Dentro de uma rotina de sistematização da assistência de enfermagem, existe inclusive um diagnóstico de enfermagem na NANDA, e que deve ser utilizado em registro no prontuário. Digo que vai depender da rotina da instituição. Como o que existe no momento são casos isolados e não sistematizados, solicitamos aos colegas que trabalham com o Reiki que possam sistematizar a sua aplicação e o seu registro. Seria bom se isso realmente pudesse ser colocado em aplicação e evidência.

 

O consentimento do paciente em receber a técnica é por escrito ou é um comunicado entre profissional-paciente?

Na minha prática eu apenas tenho uma conversa com o cliente de esclarecimento sobre o que é o Reiki. Na área hospitalar, desde que haja a sistematização da assistência, acredito que deva ser usada a rotina de consentimento escrito pelo paciente ou responsável, com o intuito de evitar possíveis complicações por recusa, principalmente por parte de pacientes inconscientes ou menores de idade.

 

O Reiki pode ser aplicado pelo auxiliar/ técnico de enfermagem?

Sim, o Reiki pode ser aplicado por qualquer profissional seja da enfermagem ou de qualquer outra área, desde que esse seja iniciado/habilitado por um Reiki Master (Mestre em Reiki), por ser uma terapia tradicional japonesa (assim como a acupuntura chinesa – passa de pai para filho), não necessita de formação superior para tal. Na realidade a área e a idade não vão influenciar na aplicação, mas sim a consciência do reikiano (pessoa habilitada em Reiki).

 

Quais são as etapas/estágios para o profissional que quer se especializar em Reiki?

Veja bem, existem várias linhagens de Reiki. Na minha linhagem, a formação é organizada em três níveis: sendo o nível I chamado de Reiki presencial; o nível II de Reiki a distancia e o nível III, de nível de Reiki Master (nível do Mestre). Ao todo, dependendo da aplicação do aluno, a formação gira em torno de um ano e meio a dois anos. Como é um curso livre, o processo de especialização deve ser visto junto à Associação Brasileira de Terapias Naturais em Enfermagem (Abraten), que é o órgão responsável por congregar os colegas da enfermagem que atuam com estas práticas holísticas. A sede é no Rio Grande do Sul.

 

Em sua opinião, como a saúde vê a aplicação do Reiki por parte da enfermagem?

Como uma terapia holística e que está sendo divulgada em massa há pouco tempo, embora já presente no Brasil há alguns anos, existe ainda um pouco de preconceito quanto às mesmas. E mais, por ser aplicada por uma profissão que sofre as discriminações históricas e cuja população não esta habituada com o enfermeiro diagnosticando e tratando, mesmo sendo com uma terapia holística, o profissional sofre no inicio para conseguir clientela, dependendo também da região do Brasil. Algumas profissões já a aplicam há mais tempo que a enfermagem, como é o caso da fisioterapia, recebendo uma melhor aceitação da população. Casos especiais podem ser citados, quando o enfermeiro já tem uma clientela especifica de conhecidos, que confiam no seu trabalho e já conhecem ou ouviram falar da terapia.

 

 

“cuja população não esta habituada com o enfermeiro diagnosticando e tratando, mesmo sendo com uma terapia holística, o profissional sofre no inicio para conseguir clientela”

 

 

Quais são os principais benefícios do Reiki para um paciente?

Veja bem, os benefícios vão desde o relaxamento muscular (ativação do sistema nervoso parassimpático), aumento da resposta imunológica, sensação de sono, com melhoria da qualidade do repouso, melhoria da qualidade de vida pela diminuição do estresse. Como benefícios específicos, cito a diminuição ou eliminação da dor, hipertermia, potencialização de tratamentos, entre outras coisas. Na realidade, esse tratamento vai ativar a própria capacidade de cura do individuo. Posso complementar que o Reiki termina trazendo um beneficio de comportamento, por trabalhar em nível de campo energético, trazendo inclusive tranqüilidade no agir, para quem recebe e para quem aplica. Posso afirmar que no caso da Enfermagem Neonatal os benefícios são para o neonato, a genitora e o profissional, como deixei explícito na oficina que ministrei no COBENeo, Rio de janeiro, em novembro do ano passado.

 

Reiki pode ser considerado um cuidado paliativo?

Cuidado paliativo é visto como algo que vem aliviar, não solucionar. Se for nesse prisma, não vejo o Reiki como cuidado paliativo, pois na minha experiência ele já resolveu muitos problemas de pacientes e clientes. Se você for observar, na aplicação em pacientes de oncologia, em pacientes FPT (Fora de Possibilidade de Tratamento), posso visualizar como um cuidado paliativo de alívio da dor e do estresse, embora a terapeuta em Reiki Paula Horan, em suas publicações informa ter conseguido inúmeros sucessos em reabilitação de pacientes oncológicos.

 

Como deve ser o perfil do profissional que irá dedicar-se a esta área?

Vejo que precisa ter uma visão holística, não deve ver o cliente somente como um ser físico, uma vez que o mesmo é composto de várias dimensões. Deve ter afinidade com a área e gostar de ler e aprofundar-se, como em qualquer outra especialidade da Enfermagem. Lembrando que as praticas “alternativas” possuem legislação do Cofen, que na Resolução 197/1997 estabelece e reconhece as Terapias Alternativas como especialidade e/ou qualificação do profissional de Enfermagem.

 

O que levou o senhor a esta prática?

Bem, desde adolescente tenho proximidade no trabalho com energia, já conheci o Reiki na fase jovem-adulta, era enfermeiro e ao conhecê-lo, depois que fui iniciado, comecei a prática diária do Reiki, e em um ano e meio me tornei mestre. Meu mestre é pernambucano e muito ativo nas terapias holísticas.

 

Em sua opinião, o Reiki é um campo a ser explorado pela enfermagem?

Com certeza deve ser explorado, e muito. É uma área que tem potencial muito grande, como todas as terapias holísticas, e cuida do cliente como um todo, respeitando todas as suas dimensões.

 

É uma alternativa para a enfermagem empreendedora, ou seja, para o enfermeiro abrir seu próprio consultório?

Você tocou num ponto que defendo sempre. A enfermagem precisa ser empreendedora, deve ser autônoma como preconiza nossa lei 7.498/86 e deve prestar esse serviço à população brasileira. Temos vários colegas no Brasil que possuem seus consultórios e clinicas. Vou citar duas que são conhecidas e amigas pessoais. A Dra. Isabel Reis, Conselheira do Cofen, que possui sua clínica e faz aplicação de Acupuntura no Distrito Federal. Outra colega é a Dra. Rosemeire Sartori, de São Paulo, que trabalha com Reflexologia, e desde 2001 eu possuo um Consultório de Enfermagem onde trabalho com o Reiki, massagem Do-in e massagem Ayurvédica.

 

Quais recomendações você acha importante passar ao terapeuta antes da aplicação de Reiki?

Lavar as mãos é essencial antes da aplicação de Reiki, pois devem ser retiradas tanto as impurezas físicas como as energéticas. Lava-se com água e sabonete e, se for possível, com o sal granulado, que muitos pensam que é utilizado pelo sabor do salgado, mas não, o que importa aqui são os cristais do mesmo para uma limpeza energética. Pode ser utilizado os próprios cristais para essa lavagem das mãos, embora com cristais você possa ter incidentes como cortes nas mãos do reikiano. Estar tranqüilo é outro aspecto fundamental. O reikiano do nível I recebe do seu mestre orientação quanto ao centramento antes da aplicação. No nível II e III também são utilizados os centramentos (concentração) antes da aplicação. O ambiente pode ser preparado para expandir o potencial da aplicação (luzes diminuídas, incenso ou essência, cores, som de relaxamento, etc.) embora possa ser aplicado em qualquer lugar, em uma rodoviária, em um aeroporto ou outro local.

 

 

 

Marcelino da Silva Cavalcante é enfermeiro com especialização em Antropologia da Saúde e Obstetrícia, docente da Faculdade Mater Dei, em Manaus, membro da Câmara Técnica de Atenção a Saúde do Cofen e Conselheiro do Coren-PA.