São Paulo, 2 de dezembro de 2021
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Riscos Ocupacionais

Maria Angélica Giannini Guglielmi
Especialista em Enfermagem do trabalho e Administração Hospitalar e vice-presidente da Anent
angelicagugli@gmail.com

14/10/2010

A Saúde Ocupacional é, ou deveria ser, uma das principais preocupações dos empregados e seus empregadores. Algumas profissões apresentam riscos menores a outras, mas toda e qualquer profissão está sujeita a riscos ocupacionais, que decorrem das condições inerentes ao ambiente ou processo operacional que interfere no bem-estar da saúde e segurança do trabalhador.

 

Este assunto é tão importante na área da saúde que seus profissionais têm respaldo em uma normatização específica. Mais conhecida como NR-32, esta Norma Regulamentadora, criada pelo Ministério do Trabalho e Emprego, estabelece diretrizes básicas para a implantação de medidas de proteção à segurança e à saúde daqueles que trabalham em serviços de saúde. Infelizmente, ela nem sempre é cumprida à risca, seja pelo empregador ou pelo empregado, o que gera riscos ocupacionais.

 

A enfermagem, em seu cotidiano, está exposta a inúmeros riscos. “A maioria dos profissionais de saúde não se dá conta a quantos riscos estamos expostos diariamente, em cada processo do cuidar. Somos formados para cuidar da saúde do outro e esquecemos que também devemos cuidar da nossa saúde”, explica Maria Angélica Guglielmi, especialista em Enfermagem do Trabalho, vice-presidente da ANENT (Associação Nacional de Enfermagem do Trabalho) e Conselheira do COREN-SP e a entrevistada do Portal para falar sobre Riscos Ocupacionais. Em um bate-papo tranqüilo e de muita informação, Guglielmi, que além de ser um dos principais nomes quando o assunto é a saúde do trabalhador, é de uma simpatia ímpar e contagiante, falou sobre os tipos de riscos a que os colaboradores da enfermagem estão expostos, a conseqüência de cada um deles e o que é preciso para haver maior conscientização da parte dos profissionais e das instituições.

 

 

Como estão classificados os riscos ocupacionais?

De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), os riscos são agrupados em categorias: químicos, mecânicos, físicos, biológicos e ergonômicos. As precauções contra os riscos de acidentes levam em conta aspectos que vão da limpeza dos ambientes aos cuidados com agentes radioativos.

 

Quais situações englobam os riscos químicos?

Esta situação envolve substâncias, compostos ou produtos químicos em suas diversas formas, como sólida, líquida, plasma, vapor etc. Os riscos são diretos aos profissionais que atuam com medicação quimioterápica ou outros produtos químicos, como degermantes para assepsia de materiais, por exemplo. O “inocente” cloro que usamos para uma simples limpeza é um importante agressor para as vias respiratórias.

 

No que consistem riscos mecânicos?

É todo e qualquer risco a que o colaborador está submetido. É o chamado ‘perigo de se acidentar naquilo que se faz’. Um exemplo: em um corredor estreito, um colega está empurrando uma maca e, sem querer, passa com a maca nos pés do colega. Outro exemplo são os arranjos físicos inadequados: colocar uma prancheta em cima de cobertores e travesseiros. No momento em que o colega for pegar um coberto, a probabilidade de a prancheta cair sobre a cabeça dele é grande.

 

O que a senhora pode nos falar sobre riscos físicos?

Consideram-se riscos físicos todos aqueles que envolvem ruído, vibração, iluminação, temperatura ambiental extrema (frio ou calor), pressão, radiações ionizantes e não ionizantes, temperaturas extremas, pressões anormais e umidades, iluminação inadequada e exposição á incêndios e choques elétricos. Também estão inseridos nestes riscos os profissionais que atual com radioterapia e com raios-X de forma geral. Neste caso, é fundamental a instituição de saúde ter implantado o Plano de Proteção Radiológica (PPR) para o benefício de seus colaboradores.

 

 

E quais são os possíveis riscos biológicos nos quais a enfermagem está submetida?

Na saúde, o risco biológico é bem claro. O profissional de saúde está exposto no dia-a-dia de um centro-cirúrgico, de um laboratório, de um pronto-atendimento ou em qualquer outra área em que haja fluido e ou secreção humana. Eles estão relacionados a microorganismos, bactérias, fungos, protozoários, vírus e outros, nos materiais infecto-contagiosos, e que podem vir a causar até mesmo contágio da tuberculose, hepatite, rubéola, herpes, escabiose e até mesmo Aids. Aqui estão inseridos os acidentes perfuro-cortantes, cujos profissionais da enfermagem estão vulneráveis no exercício da profissão.

  

Com relação aos ergonômicos, quais são os fatores predisponentes a causarem doenças e acidentes ao trabalhador da enfermagem?

Estes riscos compreendem local e situações inadequadas para o cumprimento das funções do colaborador. Podem causar danos á saúde e bem-estar do trabalhador a postura inadequada em virtude do mobiliário, levantamento e transporte de pesos, erro de concepção de rotinas e serviços, piso escorregadio, maquinário e equipamentos defeituosos. Um exemplo muito simples de problema ergonômico causado por postura está relacionado a profissionais de resgate: para que eles possam puncionar um vaso em uma vítima dentro de um veículo que colidiu, ele precisa usar, muitas vezes, de contorcionismos que prejudicam a sua postura. Isso feito várias vezes causa danos irreparáveis á saúde do trabalhador se ele não tiver um respaldo de prevenção. Outro exemplo é o do banho no leito: imagine um profissional franzino precisar banhar um obeso na cama, te r que vira-lo, trocar o colchão. É bem problemático.

 

Quando o tema saúde ocupacional tornou-se assunto relevante na área da saúde?

De um modo geral, o Brasil passou a dar uma atenção aos problemas causados na rotina do exercício profissional somente da década de 40, quando, inclusive, foram criados mecanismos de contribuição ao trabalhador, como é o caso da criação da CLT (Consolidação das Leis Trabalhistas), do FGTS (Fundo de Garantia por Tempo de Serviço), do INAMPS (Instituto Nacional da Previdência Social), hoje INSS (Instituto Nacional de Seguro Social), e o surgimento da Organização Mundial da Saúde (OMS) são importantes iniciativas que enfatizam a necessidade de proteção e promoção da saúde e segurança do trabalhador, e isso somente é possível mediante prevenção e informação Neste quesito, efetivamente para a enfermagem e demais trabalhadores da saúde, a NR-32 foi a mais importante conquista, muito embora ela não seja aplica por todas as instituições e nem cumprida por todos os profissionais. Evidenciamos dia-a-dia que embora haja conhecimento e informação à disposição dos empregados e empregadores no que se refere à saúde ocupacional continua muito elevado o número de doenças e de acidentes cuja estatística poderia ser muito menor causo houvesse maior rigor nesta questão. Reafirmo isso tanto da parte da instituição como dos trabalhadores que nelas atuam.

 

Qual a efetiva contribuição da NR-32?

Ela trouxe avanços muito positivos. Todos nós sabemos que algumas exigências contidas na Normatização podem até parecer antipáticas a nós profissionais, mas é primordial respeitá-las. Exemplifico: a proibição do uso de acessórios ou calçados abertos, em um primeiro momento, principalmente se isto for visto na época do verão, causa desconforto não poder usar uma sandália no ambiente de trabalho, mas quando vamos entender a fundo esta necessidade, percebemos que um simples descuido no manuseio de um perfuro-cortante pode nos expor a uma situação de risco.

 

O que acarreta um acidente de trabalho?

Por acidente de trabalho, de acordo com o artigo 19 da lei 8.213, de 24 de julho de 1991, é “todo aquele que ocorre pelo exercício do trabalho, a serviço da empresa, provocando lesão corporal, perturbação funcional ou doença que cause a morte, perda ou redução, permanente ou temporária da capacidade para o trabalho”. Por isso, o que acarretará a um eventual acidente motivado por riscos ocupacionais vai depender do grau de agressividade do risco. Podem ocorrer desde um breve afastamento da atividade profissional até transtornos pessoais e familiares, perdas financeiras e também prejuízos funcionais às unidades hospitalares e ao setor previdenciário. Precisa haver uma mudança de comportamento da instituição e de todos os seus colaboradores. E essa atenção á saúde ocupacional precisa começar pela enfermagem, que é o maior contingente de colaboradores em um ambiente hospitalar.

 

E como evitar os riscos ocupacionais em saúde?

Para evitar ou mesmo minimizar os riscos ocupacionais é muito importante o cumprimento da NR-32, que dentre seus quesitos refere-se à exigência de instituições disponibilizarem aos seus colaboradores todos os EPIs (equipamentos de proteção individual) de forma adequada, correta e segura. Garantir treinamento e capacitação periódica também é parte das diretrizes básicas para contribuir com o bem-estar e a saúde do trabalhador durante as suas atividades. Porém, é essencial e obrigatória a implantação de uma Comissão Interna de Prevenção de Acidentes (CIPA) dentro da instituição, e a efetiva participação dos funcionários, bem como a de Controle de Infecção Hospitalar (CCIH) e os programas PPRA e PPRO, que respectivamente significam Programa de Prevenção de Riscos Ambientais e Programa de Prevenção de Riscos Ocupacionais.

 

 

“o que acarretará a um eventual acidente motivado por riscos ocupacionais vai depender do grau de agressividade do risco”

 

 

O que consiste o Programa de Segurança e Saúde?

Prevenção é a palavra que nos vem à mente quando pensamos em doenças ocupacionais e acidentes do trabalho. O Programa de Segurança e Saúde tem como objetivo melhorar o ambiente de trabalho e a qualidade de vida do trabalhador, refletindo na produtividade. Subsidia ações para a redução nos índices de doenças e acidentes do trabalho nas empresas. O importante é reunir num só programa ações integradas de saúde, higiene e segurança no trabalho.

 

O que é necessário para a criação deste Programa?

É preciso identificar os riscos, analisar e determinar a natureza dos riscos que afetam a saúde do trabalhador, corrigir as não-conformidades e introduzir melhorias contínuas, assegurar que as formas de controle atendam às necessidades previstas e certificar que os problemas no local de trabalho sejam minimizados.

 

Como a enfermagem do trabalho pode ou deve contribuir com a prevenção de riscos ocupacionais?

Nas perspectivas dos direitos do trabalhador em usufruir de uma vida saudável, na medida em que não se pode dissociar qualidade de vida e condições do trabalho. Valorizar os meios de produção em detrimento da própria saúde humana é fato presente ao longo da história da sociedade. A enfermagem do trabalho atua tanto no cuidar como no capacitar o trabalhador para o gerenciamento de sua própria saúde.

 

No cenário atual, o que a senhora recomenda para o aperfeiçoamento dos enfermeiros do trabalho?

A enfermagem do trabalho carece de capacitação e aprimoramento permanente. Precisa se enxergar como membro de equipe multidisciplinar, sair dos muros apenas da saúde e vislumbrar o contexto trabalhador/ empregador de forma ampla. Os problemas referentes à segurança, à saúde, ao meio ambiente e à qualidade de vida no trabalho são importantes para as entidades de classe, Governo, nas entidades empresariais na sociedade como um todo. Este é mais um motivo para a enfermagem criar uma consciência política, vendo – se como agente de mudança na sociedade. Buscar melhor qualidade de seu ambiente e processo de trabalho, também, fará diferença em sua forma de atender o trabalhador. 

 

Quais os principais indicadores que a senhora indica aos profissionais de enfermagem do trabalho para o monitoramento do processo de prevenção dos riscos ocupacionais?

A delícia da área de Saúde, Segurança e Meio Ambiente é que sua validação será fruto de um trabalho em equipe com formações distinta, multidisciplinar e multifuncional. Portanto, acredito que para a análise dos riscos ocupacionais a enfermagem trabalhará com esta equipe. De qualquer forma, um método sistemático de análise e avaliação de todas as fases do processo de trabalho para entender a seqüência de operações que o trabalhador executa. Identificar os riscos potenciais de acidentes e doenças ocupacionais. Participar na implementação da melhor forma para execução de cada etapa do trabalho com segurança. Ouvir os gestores e trabalhadores diretos auxilia no desenvolvimento de práticas seguras de trabalho, propiciando comprometimento e engajamento nos programas de saúde e segurança no trabalho, contribuindo para a efetividade das ações de promoção da saúde nas empresas.