São Paulo, 15 de novembro de 2018
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Com sussurros, vídeos ASMR prometem combate à ansiedade, alívio e sono

12/7/2018

Ruídos de objetos

Sussurros, sons de lábios estalantes e de mãos e dedos se esfregando são parte de um nicho de centenas de milhares de vídeos no YouTube, todos com a promessa de relaxamento e combate à ansiedade e à insônia.

 

Resposta Sensorial Autônoma do Meridiano é o nome longo para ASMR, categoria que reúne esses vídeos. Trata-se de uma sensação de formigamento, uma certa dormência que começa no topo da cabeça e se espalha pelo corpo, segundo relatam as pessoas que a experimentam.


 

“Descobri a sensação quando era criança, com uns cinco anos. Foi numa loja de brinquedos, enquanto via a moça embrulhar presente, com aquele barulho de durex nas dobras do papel”, diz Mariane Carolina Rossi, 25. “Também sentia quando via mulheres abrindo tampinha de batom. É como se alguém estivesse fazendo um cafuné bem lento.”

 

Mariane diz que costumava usar vídeos de maquiagem e seus sons para dormir —até descobrir os vídeos ASMR, feitos com esse propósito de relaxamento através de sons. Hoje, além de consumidora é também produtora de ASMR.

 

As produções costumam ser simples: uma pessoa de frente para a câmera e um gravador de som (profissional ou não). O resto fica por conta da imaginação de quem faz o vídeo.

 

Há filmagens que se concentram em gente fazendo barulhos com a boca —“tuc tuc tuc”, chicletes e balas— e outros em que os youtubers brincam com objetos —arranham, amassam, batucam.


 

Tem até vídeos nos quais personagens são interpretados como se estivessem falando com quem assiste, sempre aos sussurros --um médico examinando um paciente, uma mãe colocando o filho para dormir, um(a) namorado(a) que chega em casa após um dia de trabalho.

 

"O ASMR está relacionado a um momento de paz. Para assistir, ou você tem que estar sozinho ou a pessoa ao lado tem que estar em silêncio. O ambiente é calmo, a iluminação é mais baixa", diz Mariane.

 

Conhecida no mundo ASMR como Sweet Carol, ela já tem mais 700 mil inscritos em seu canal no Youtube --número cerca de dez vezes maior do que o da população de sua cidade, Itapira, no interior de São Paulo. É uma das youtubers mais populares do Brasil.

 

No canal Sabrina ASMR, outra expoente do gênero, com quase 200 mil inscritos, o vídeo "Vou te fazer dormir intensamente hoje" é o mais visto. "Os vídeos em que eu faço sons com a boca são os que as pessoas mais gostam", diz Sabrina Pimentel, 22.


 

A ex-estudante de jornalismo --que hoje, assim como Mariane/Sweet Carol, vive da renda dos vídeos-- diz que começou a assistir as produções e não conseguiu mais parar, mesmo achando-as estranhas no início. A reação não é incomum. "Falam para eu ir me tratar", diz Sabrina. "Ou você ama ou você odeia ASMR", diz Sweet Carol.

 

Uma pesquisa publicada no dia 20 de junho na revista científica Plos One deu mais força aos relatos, até agora anedóticos, das pessoas que dizem sentir ASMR e relaxar com esse tipo de vídeo. 

 

"Eu sinto ASMR desde que tenho consciência de mim", afirma Giulia Lara Poerio, pesquisadora do departamento de psicologia da Universidade de Sheffield, na Inglaterra, e uma das autoras da pesquisa. "Uma das minhas situações de gatilho preferidas é de alguém fazendo meu check-in em um hotel", diz Poerio. "Eu realmente gosto daqueles vídeos que têm sons de boca e daqueles em que as pessoas falam sussurrando, o que provavelmente é o maior gatilho de ASMR para mim." 

 

A pesquisadora afirma que não é todo mundo que consegue sentir ASMR --e quem sente não costuma falar a respeito porque acha que é algo comum ou único. Em busca de entender mais o evento, que ainda é pouco estudado, ela testou se o fenômeno tinha repercussões mensuráveis fisiologicamente. E descobriu que sim. 

 

Segundo o estudo, que contou com 1.112 participantes, as pessoas que afirmavam experimentar ASMR ao assistir vídeos relacionados ao assunto tinham sensações de calma e excitação. Fisiologicamente, a pesquisa encontrou evidências de mudança na atividade elétrica na pele e de diminuição de batimentos cardíacos, o que daria suporte aos relatos de relaxamento.

 

Quanto à ajuda para dormir ou combater a insônia, Helena Hachul, pesquisadora que trabalha com medicina alternativa no Instituto do Sono e professora na Unifesp, diz que ainda é cedo para bater o martelo. No entanto, algumas características dos vídeos de ASMR podem dar pistas positivas para quem os usa na cama. 

 

"Todas as técnicas que remetem a relaxamento, que fazem a pessoa parar, olhar para ela mesma, respirar, se isolar um pouco do mundo, podem ajudar", diz Hachul, que cita meditação, massagem, ioga e acupuntura como algumas das técnicas que têm efeito sobre a insônia.

 

Daniel Ciampi, neurologista do Hospital das Clínicas da USP, afirma que é cedo para conseguir explicar possíveis efeitos e usos de ASMR, mas que os vídeos, pelo contexto e pelas repetições, parecem buscar estimular a pessoa a desconectar determinadas redes neurais. "Você começa a olhar sem ver. Depois de cinco minutos vendo alguém comendo pipoca, você não está mais vendo a pipoca", diz. 

 

Mesmo assim, Ciampi avalia que não há muita novidade no assunto. Para ele, trata-se de uma questão de estímulos sobre o comportamento, algo comum no dia a dia --como bebês que dormem ao mamar e ou ao ouvir a mãe cantando uma música com a voz baixa e doce. "Não é mágica", diz o neurologista.

 

Os sussurros dos vídeos ASMR, a fala suave e personagens interagindo com você podem também ser entendidos como estímulos sexuais. "Há, sim, pessoas que se excitam com ASMR", diz Sweet Carol. Para ela, alguns youtubers fazem os vídeos com essas intenções, longe da ideia de relaxamento.

 

"No roleplay [interpretação de personagens], fazemos algo mais sensual dependendo do personagem. Nunca é com esse intuito, mas, por estar sussurrando, por ser um contato íntimo, acaba se tornando sensual", diz Sabrina.


 

O foco nos sons e na boca, uma zona erógena, podem facilitar a conotação erótica que alguns dão aos vídeos, segundo Carmita Abdo, coordenadora do programa de estudos em sexualidade da USP. Pelo menos entre os participantes do estudo publicado na Plos One, Giulia Lara Poerio, da Universidade de Sheffield, não encontrou sinais de excitação erótica, mas, sim, sensações de conectividade social. 



Fonte: Folha de S. Paulo | Portal da Enfermagem

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