São Paulo, 14 de dezembro de 2018
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Lubrificantes de maconha prometem mais orgasmos; leia depoimento

13/3/2018

Lubrificante de maconha

​Um uso pouco ortodoxo da maconha tem seduzido mulheres com a promessa de orgasmos mais intensos, prolongados ou até múltiplos. São lubrificantes à base de óleo de Cannabis e óleo de coco, aplicados no clitóris e na vagina pouco antes da masturbação ou do sexo. Sua produção é oficial nos estados que legalizaram o mercado comercial da erva nos EUA, é tolerada no Uruguai e clandestina no Brasil.


Por aqui, a reportagem da Folha mapeou versões caseiras do lubrificante produzidas no Sul, Sudeste e Nordeste. Elas circulam em grupos de mulheres que se articulam via WhatsApp e redes sociais. “Sei que posso ser presa, mas não tenho medo”, diz Joana (nome fictício), 30, que produz o óleo e diz ter mais de cem clientes regulares, entre Pernambuco, Rio e São Paulo. “Quero ver mulheres mais independentes sexualmente.”


Pesquisa do Projeto de Sexualidade da Faculdade de Medicina da USP, divulgada no ano passado, aponta que 56% das brasileiras têm dificuldade em atingir o orgasmo. Joana, assim como outras brasileiras, admite ter criado seu óleo inspirada no Foriaspray criado na Califórnia em 2014, que custa US$ 50. 


O estado legalizou a maconha medicinal em 1996 e sua versãocomercial em 2017, juntando-se a outros oito territórios do país que tornaram legal o uso recreativo da planta. “Os testemunhos que recebemos são incríveis, seja de mulheres jovens que têm melhores orgasmos, seja de mulheres na menopausa, que relatam maior lubrificação e prazer”, diz Rebecca Hasbrouck, gerente de operações da empresa.


Uma versão do produto sem THC (tetra-hidrocanabinol, o psicoativo da Cannabis) e com CBD (canabidiol, outro princípio ativo da erva, usado em medicamentos e legal em vários países) passou a ser exportada mundo afora.


Segundo a empresa, o Brasil está entre os dez países que mais encomendam a novidade. O número de clientes brasileiras subiu de 40 para 250 em seis meses. A Anvisa informou que a importação de produtos à base de canabidiole outros canabinoides é autorizada para fins exclusivos de tratamento de saúde de pessoa física e mediante prescrição médica. Nos demais casos, a importação pode ser enquadrada nos crimes de porte ou tráfico de drogas, segundo informações da Polícia Federal.


Hasbrouck diz ser esperada a proliferação de versões locais do Foria. “Nossa matéria-prima é natural. Não me surpreende que pessoas se arrisquem a criar suas versões.” A mais barulhenta delas foi criada por uma brasileira, batizada de XapaXana e lançada em dezembro numa feira de produtos à base de maconha no Uruguai, primeiro país do mundo a regular produção e venda recreativa de maconha com controle estatal. “Fiz muitas pesquisas e desenvolvi um projeto de arte que trata do empoderamento sexual feminino”, define Débora Mello, 41, sobre o fanzine que divulga obras de artistas latino-americanas e traz, como brinde, cinco miligramas do produto.


Vendido em sex shops e pequenas lojas na capital e no litoral uruguaios, o Xapa Xana circula no chamado “mercado gris” (cinza) —que aguarda regulação específica. “Juntei dois tabus em um potinho: a maconha e o prazer sexual feminino”, brinca ela, filha de pai uruguaio, criada numa família religiosa. “A mulher sempre foi muito reprimida sexualmente, o que gera medo e culpa, enquanto homens sempre foram estimulados a explorar seu prazer”, diz. “Agora, nós mulheres temos de aprender a usufruir do nosso corpo. É um movimento que só tende a crescer.” Mello foi sondada por um laboratório suíço, interessado em seu XapaXana, que já foi confundido com uma versão brasileira de mesmo nome, mas com muitas reclamações após seu uso.


LADO B


De dez brasileiras que experimentaram versões caseiras do óleo e foram ouvidas pela reportagem, sete relataram efeitos positivos e três não notaram diferença. Duas disseram terem desenvolvido candidíaseapós o uso. Houve relatos também de sensibilidade maior entre os parceiros. Segundo o farmacêutico Paulo Orlandi, pesquisador da Unifesp, o controle sanitário é ainda mais importante pela via vaginal que pela oral. Feito sem condições adequadas de higiene, o óleo pode provocar um desequilíbrio na microflora vaginal, afirma ele.


O produto não deve ainda ser usado com camisinhas de látex, já que o óleo parece corromper o material. Médicos dizem que supostos efeitos do produto podem ser devidos à eventual presença de receptores do sistema endoncanabinoide(neurotransmissores semelhantes aos compostos químicos da maconha) na região genital.


“Se existirem receptores de THC e CBD na vagina, o produto ajudaria no relaxamento daquela musculatura e sua sensibilidade”, especula o ginecologista Renato Kalil, do hospital Albert Einstein. “Se este tipo de produto for aprovado pela Anvisa, eu indicaria com tranquilidade.” Para o ginecologista César Fernandes, não há dados de eficácia e segurança para o uso responsável do produto.



 

Depoimento

 

'NENHUM FAZ MILAGRE, MAS ABREM NOVAS SENSAÇÕES'

 

Marcella Franco

 

São 16h20, estou sozinha em casa, e um envelope me encara de cima da mesa da cozinha. Dentro dele, três singelos vidrinhos aguardam a avaliação de seu conteúdo. Nestes 20 anos de carreira, já critiquei peça de teatro, show e livro, mas lubrificante à base de maconha vai ser a primeira vez. Tiro a calcinha: é hora de trabalhar.

 

Foria, o lubrificante americano e o mais elegante, vem em uma embalagem que lembra produtos de beleza caros. A sensação é de que talvez os orgasmos de Hollywood sejam, finalmente, possíveis. Xapa Xana, uruguaio, vem em um pote redondo que, a despeito de trazer a ilustração mais legal do Universo (uma xoxotinha colorida e meio alucinada), depois do primeiro uso fica todo melecado, desperdiçando produto. Completa a escalação um óleo caseiro nacional com cara de remédio homeopático.


Embora a ideia seja aplicar na mucosa da vagina ao menos meia hora antes do sexo em si, convenhamos que esse tipo de programação é pouco prática na vida real. Sendo casada, mãe de dois, funcionária e bailarina, admito que não tenho a vida sexual mais inusitada do mundo, mas considero broxante agendar trepadas.


Estando desacompanhada, no entanto, decidi untar as partes e aguardar. Havia uma pilha de louça a lavar, e me empenhei em cumprir tarefas domésticas fingindo não saber que passaria de dona de casa a despudorada. Entre os três lubrificantes de maconha, o Foria foi o que menos surpreendeu. Na hora da masturbação não fez lá grande diferença, causando sensação de um Halls preto esfregado no clitóris.


O brasileiro caseiro é o que mais demora para fazer efeito, mas, quando bate, a onda é boa. Entre a dormência e o inchaço, senti a vulva mais sensível e receptiva. O orgasmo parece mais longo, embora a intensidade seja igual.


O campeão é o Xapa Xana. Além de fazer efeito de cara, causa a “chapação” esperada de um produto à base de maconha. Algumas gotas já ajudam a gozar de maneira mais prolongada e vigorosa. Pulei para o segundo, terceiro e quarto orgasmos com menos esforço que o normal. Nenhum dos produtos faz milagre. É preciso lembrar que as condições de temperatura e pressão adequadas ainda são fundamentais —não adianta se lubrificar e sentar para assistir ao Datena na TV. Entrar no clima e relaxar ainda são importantes. Tendo isso em mente, dá para dizer que são produtos que abrem novas sensações para quem já experimentou o orgasmo e, provavelmente, darão uma forcinha a quem ainda não chegou lá.



Fonte: Folha de S. Paulo | Portal da Enfermagem

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