São Paulo, 19 de agosto de 2018
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Nosso estado emocional afeta nosso comportamento diante do sofrimento alheio

6/2/2018

Emoções

Quando vemos alguém sofrer, somos capazes de nos colocar em sua pele, sentirmos empatia. Isso ocorre porque partes do cérebro ligadas à nossa própria dor são ativadas. Mas nosso estado emocional também pode impactar o nível de empatia que sentimos. Ou seja, mudam a forma como o nosso cérebro reage à dor dos outros. Ou seja, nossas interações sociais podem ser afetadas negativamente quando nos sentimos mal.

 

É evidente que nosso humor pode influenciar nosso comportamento de várias maneiras, desde nossas escolhas alimentares - quando estamos de mau humor, por exemplo, costumamos comer de forma menos saudável - às nossas amizades. Quando nossos amigos estão abatidos e tristes, esse sentimento pode ser contagioso, fazendo com que sintamos o mesmo. Segundo um estudo realizado em 2017, o mau humor pode se espalhar até mesmo pelas redes sociais.

 

A verdade é que nossas emoções são tão poderosas que, quando estamos de bom humor, funcionam como uma espécie de analgésico se nos ferirmos. Por outro lado, sentimos mais dor quando estamos fragilizados e pessimistas.

 

Pior, um estudo recente, publicado em dezembro do ano passado, mostrou que, quando nos sentimos mal, nossa capacidade interna para ajudar outras pessoas com dor é significativamente afetada. Nossa empatia acaba, assim, "amortecida".

 

Sofrimento alheio


A equipe da pesquisadora Emilie Qiao-Tasserit, da Universidade de Genebra, na Suíça, queria entender como nossas emoções influenciam a maneira como reagimos ao vermos os outros sofrer. Para isso, reuniu um grupo de voluntários. Eles foram induzidos a sentir dor com um dispositivo que aumentava a temperatura na perna. Os pesquisadores também mostraram aos participantes trechos de filmes positivos ou negativos além de fazê-los sentir dor, ou quando assistiam a vídeos dos outros sofrendo.

 

Os cientistas se perguntaram, então: os voluntários sentiam empatia em relação àqueles que conheciam quando estes sentiam dor?

 

Aqueles que assistiram a um clipe negativo e depois viram outros com dor mostraram menos atividade cerebral em áreas relacionadas à dor: o lobo da ínsula e o giro do cíngulo. Essas duas partes do cérebro geralmente ficam ativas quando vemos outros com dor, bem como quando nós mesmos sentimos dor. "Em outras palavras, as emoções negativas podem reprimir a capacidade do nosso cérebro para ser sensível à dor dos outros", explica Qiao-Tasserit.

 

A descoberta é reveladora, pois mostra que as emoções podem significativamente mudar o "estado do nosso cérebro", e que, ao fazê-lo, nossos próprios sentimentos modificam a forma como reagimos a alguém. Na mesma linha, outro estudo de Qiao-Tasserit e de sua equipe constatou que, depois de assistir a um vídeo negativo, as pessoas tendiam a julgar um rosto com emoção neutra como mais negativo.

 

Tais resultados têm, obviamente, implicações no mundo real. Se uma pessoa que exerce determinado poder, por exemplo, um chefe, seja exposto a algo negativo em suas vidas - mesmo algo tão simples como um filme negativo - podem ficar menos sensíveis à dor dos subordinados ou mesmo vê-los de forma mais negativa. Ou seja, tornam-se menos empáticos aos sentimentos dos outros.

 

A falta de empatia também gera outras consequências. As conclusões da pesquisa mostram que uma menor empatia acarreta menos doações para instituições de caridade. O mapeamento do cérebro também revelou que ficamos menos solidários com aqueles que não estão em nosso círculo social imediato.

Mulher com as mãos na cabeça

Razões


Mas por que as emoções negativas reduzem a empatia? Pode ser que um tipo específico de empatia, chamado de sofrimento empático, esteja em jogo. Isso, explica Olga Klimecki, também da Universidade de Genebra, é "o sentimento de estar sobrecarregado" quando algo ruim acontece com outra pessoa, o que faz você querer se proteger em vez de ser dragado por sentimentos negativos. Esse tipo de empatia mostra até mesmo uma ativação no cérebro muito diferente da empatia típica. Também pode naturalmente reduzir a compaixão.

 

Por outro lado, pode ser que qualquer situação que provoque emoções negativas nos estimule a nos concentrar mais em nós mesmos e em todos os problemas que enfrentamos. "Pacientes ansiosos e deprimidos que sofrem de um excesso de emoções negativas são mais propensos a se concentrar em seus próprios problemas e se isolarem", diz Qiao-Tasserit.

 

Agressividade

 

Um estudo realizado em 2016 por Klimecki e seus colegas descobriu que essa falta de empatia aumenta a agressividade. Para chegar a essa conclusão, os participantes foram submetidos a situações injustas e então tiveram a possibilidade de punir ou perdoar seus concorrentes. Além disso, foram convidados a fazer testes de personalidade antes de entrarem no laboratório. Os pesquisadores descobriram que aqueles que eram mais naturalmente solidários reagiram com um comportamento menos punitivo.

 

Para Klimecki, a conclusão foi emblemática. Em sua extensa pesquisa sobre o assunto, ela mostrou que é possível cultivar um comportamento mais solidário. E descobriu que os sentimentos que incentivam a compaixão podem ser treinados. Nossas respostas emocionais aos outros são, portanto, variáveis.

 

Isso mostra que todos podemos trabalhar nossa empatia interior, mesmo diante da angústia de outra pessoa. E ao pensarmos de uma forma mais positiva, isso nos ajudará a perceber as necessidades dos outros. "Isso poderia contribuir para relacionamentos melhores, um fator chave da felicidade", diz Qiao-Tasserit. Então, da próxima vez que você estiver de mau humor, considere o efeito que isso pode ter sobre as pessoas com quem você lida no dia a dia. Além disso, talvez valha a pena dosar o número de horas que você passa lendo romances sombrios ou assistindo a filmes de terror.



Fonte: BBC Brasil | Portal da Enfermagem

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