São Paulo, 24 de setembro de 2017
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Casais devem abraçar o tédio, diz autora francesa em livro

12/9/2017

Casais

O tédio de saber quase tudo que seu companheiro fará pode ser um obstáculo para casais que estão juntos há muito tempo, principalmente em um mundo que valoriza o brilho e "as cores que nunca desbotam". Esse sentimento, contudo, deveria ser abraçado e considerado algo que nutre o relacionamento.

 

É o que diz Claude Habib, autodenominada conjugalista, professora da Universidade Sorbonne e autora do livro sobre relacionamentos "O Gosto pela Vida em Comum" (recém-lançado no Brasil), no qual, fugindo de respostas fáceis e dicas para casais, ela divaga sobre o valor do tédio para um relação. "O romantismo nos ensinou tão bem a reverência ao amor, compreendido como a mais alta experiência humana, que nós o retiramos da normalidade dos dias", escreve Habib. Tal distanciamento da vida cotidiana não faz sentido, segundo a autora.

 

Ela diz que, na normalidade dos dias, há dois tipos de tédio: aquele considerado normal, que também é sentido quando se está sozinho; e aquele que se aproxima da angústia. "Se é esse último o sentimento em questão, minha opinião é que você se afaste. Quanto antes melhor", diz Habib.

 

A preocupação da autora é com os casais normais, razoavelmente felizes que, à procura de alguma coisa melhor –talvez até uma busca infantil por uma vida sem tédio–, se separaram. No Brasil, para cada 100 casamentos em 2005, houve 18 divórcios. Já em 2015, o "índice de divórcios" aumentou 61% e foi de 29 para cada 100 casamentos, totalizando 328.960 separações.

 

"A busca constante por excitação não leva a lugar algum, não ajuda a conhecer melhor a pessoa amada. Essa procura é normal entre adolescentes, mas adultos precisam saber seus objetivos e viver de acordo", diz a autora, segundo a qual é na previsibilidade e no conhecimento –mesmo que nunca pleno– do próximo que reside a segurança e o apoio que dão sentido à vida a dois.

 

VIDA QUE VALE

 

Com 13 anos, Maria Jerusia Neri, hoje com 49, conheceu seu marido. Na semana passada, eles comemoraram bodas de madrepérola (traduzindo, 31 anos de casamento). Mesmo com longos anos juntos, Neri fala com doçura que é impossível cansar de seu companheiro, por ele ser muito divertido, "muito palhaço".

 

Aos 24 anos, Letícia (nome fictício) já está há uma década com seu namorado. "Um relacionamento de dez anos tende a ter um pouco de previsibilidade. Mas a gente não é o mesmo de dez anos atrás, nem de cinco, nem mesmo do mês passado, então nem tudo é sempre igual", diz. "Parece bastante, mas não 'pesa', sabe?".

 

Em comum, tanto Maria Jerusia quanto Letícia dizem que tratam seus longos relacionamentos com um ar de leveza cotidiana. "Eu acho que seria difícil uma vida sem ele. A gente já está tão acostumado um com o outro", diz Maria Jerusia. "Até onde eu sei, a vida é mais agradável quando compartilhada", afirma Habib.

 

Mesmo sem relação alguma, a frase lembra uma das afirmações de Christopher McCandless, que chegou a essa conclusão após renunciar a uma vida em família que ele considerava conformista, mudar o nome para Alexander Supertramp e isolar-se no Alasca, onde acabou morrendo. Sua história deu origem ao livro e filme "Na Natureza Selvagem".

 

Com a sentença, Habib busca atacar a ideia –uma "trapaça moderna" segundo ela– de que a escolha pessoal pela solidão tenha algum significado além da própria vida solitária. "A falta de laços propriamente dita não significa nada", diz. "A ausência é só ausência." A esta altura, o leitor pode estar se perguntando: "mas e a independência emocional?"

 

Para a autora, a busca por essa independência faz pouco sentido nos dias atuais. "Nós não consideramos mais que a sabedoria esteja associada a resistir às nossas paixões. Elas são apreciadas por nós", diz. "Eu não vejo motivo para perseguir a independência emocional, a não ser na cadeia." O leitor, agora, talvez indague: "Legal, todo mundo gosta de falar de casais fofinhos envelhecendo juntos, mas e os embustes?"

 

Para relacionamentos abusivos, o conselho de Habib é direto: "Você precisa terminá-lo. Quando uma relação inclui insanidade, insano mesmo é tentar melhorá-la." Por fim, caso você esteja se perguntando, Habib é divorciada. Ela vive desde 1984 com uma mesma pessoa, com a qual não pretende se casar. E como a relação do leitor com esta reportagem não é amorosa, antes que chegue o tédio, ela é que acaba aqui.



Fonte: Folha de S. Paulo | Portal da Enfermagem

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