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Ginástica Laboral

Conceição Volkart Boueri
Fisioterapeuta
ciribas@terra.com.br

30/3/2011

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Ginástica laboral é um conjunto de exercícios específicos realizados no local de trabalho, atuando de forma preventiva (de lesões e ou agravos) e terapêutica, com o objetivo de otimizar a qualidade de vida dos colaboradores. É um complemento que associado às melhorias ergonômicas age na prevenção das DORTs – Distúrbios osteomusculares referentes ao trabalho e nas lesões de esforço repetitivo (LER).

 

A partir de 1925, alguns países da Europa, tais como Polônia, Alemanha, Bulgária, Rússia entre outros, começaram a desenvolver programas de ginástica de pausa, como eram chamados durante a jornada de trabalho. Na mesma época, no Japão, surgiram algumas atividades ocupacionais, inicialmente pontuais, mas logo se difundiram por todo o país e, associadas a uma filosofia de vida oriental, com maior valorização do ser humano, tornou-se atividade muito praticada, principalmente após a Segunda Guerra mundial.

 

No Brasil, a preocupação com as conseqüências de lesões ocupacionais tornou-se visível a partir da década de 80, mas foi somente no ano 2000 que ela foi oficialmente incorporada pelas estratégias de Promoção da Saúde do Trabalhador. Hoje, um programa de ginástica laboral ainda é um desafio para todos os envolvidos, por ser difícil a identificação correta de fatores diretamente relacionados com as DORT/LER no ambiente de trabalho.

 

“Não podemos deixar de levar em consideração que a qualidade de vida de um modo geral contribui muito para qualquer agravo físico e/ou mental do indivíduo, principalmente nos dias atuais, quando vivemos de forma muito desequilibrada, numa busca desenfreada a valores consumistas e com atitudes competitivas a um preço muito alto”, explica a fisioterapeuta Conceição Alice Volkart Boueri, com quem o Portal da Enfermagem foi buscar mais informações sobre o tema.

 

Para a fisioterapeuta, antes de um programa como este ser implantado dentro de uma instituição, os Gestores devem reavaliar seus valores empresariais e, principalmente, serem coerentes com os mesmos. “Qualquer funcionário, de qualquer setor identifica de forma muito clara as ações reais daquelas que são mera obrigação. E o comprometimento e sucesso dependem do envolvimento de todos”.

 

 

No Brasil, quando ela foi compreendida como um instrumento para a melhoria da saúde física do trabalhador?

Existem alguns trabalhos já na década de 80 sinalizando uma preocupação com as conseqüências de lesões ocupacionais, decorrentes das mudanças de hábitos e de estilo e vida dos brasileiros, mas principalmente pelo crescimento econômico e das indústrias. Mas, podemos dizer que no Brasil a preocupação só veio a ser oficialmente incorporada pelas estratégias de Promoção da Saúde do trabalhador, pelo SUS e Ministério da Saúde em sintonia com o Ministério da Previdência Social, a partir da lei orgânica 8080/90 que oficializou a estruturação do SUS. A partir de 2000 existem medidas legais exigindo a adequação de programas de qualidade vida voltadas para o trabalhador e que ainda estão sendo adaptadas por meio de normativas feitas pelo Ministério da saúde. (Portaria 39808 GM/MS de 30/10/2010 estabelece procedimentos específicos voltados para saúde do trabalhador).

 

 

E qual é o panorama atual da ginástica laboral?

Ainda são poucos os estudos que mostram resultados desses programas, até mesmo pelo pouco tempo de implantação nas empresas, mas sabe-se de forma indireta, o impacto que causa na economia do país com os gastos relacionados aos afastamentos por motivos de saúde e licenças de saúde. Uma pesquisa divulgada pelo site administradores.com.br, feita em 2007 sinaliza que aqui, “o país teve gastos indiretos de aproximadamente R$ 42 bilhões com assistência e substituição de trabalhadores afastados por problemas de saúde. Os gastos com benefícios acidentários e aposentadorias especiais fez a Previdência desembolsar R$10,7 bilhões, cerca de 1,8% do Produto Interno Bruto (PIB)”.

 

 

Quais são os principais objetivos de um programa de ginástica laboral (PGL)?

Podemos resumir os objetivos de um PGL em dois grandes tópicos:

1 - Prevenir e amenizar os distúrbios musculoesqueléticos e psicológicos decorrentes dos efeitos dos fatores de risco existentes no trabalho.

2 - Desenvolver a integração social, mentalidade preventiva e a responsabilidade individual e coletiva da saúde da empresa.

 

 

Quais os benefícios que esta prática traz para o funcionário?

Alguns trabalhos sinalizam entre os benefícios para o trabalhador como sendo os de:

Efeitos fisiológicos:

a - Prevenir a DORT/LER.

b - Prevenir lesões.

c - Diminuir tensões generalizadas e relaxar.

d - Amenizar fadiga muscular e emocional

e - Prevenir o estresse negativo.

f - Melhorar a postura.

g - Melhorar a condição do estado de saúde geral.

 

Efeitos psicológicos:

a - Reforçar a auto-estima.

b - Aumento da capacidade de concentração no ambiente de trabalho.

c - Conquista do momento destinado a ele.

d - Valorização do funcionário (homem/ser humano)

 

Efeitos sociais:

a - Melhora relacionamento interpessoal.

b - Melhora a comunicação interna.

c - Participação ativa nas palestras debates e dinâmicas e grupo.

 

 

E para a empresa?

Podemos considerar:

a - Redução do índice de absenteísmo.

b - Maior proteção legal (estariam cumprindo as normativas do Governo).

c - Aumento de lucros.

d - Diminuição dos acidentes de trabalho.

e - Reflexão na capacidade de produção/produtividade.

f -  Integração dos trabalhadores.

g - Baixo custo dos programas em relação aos benefícios.

h - Funcionamento da ação como política de RH

 

Eu ainda acrescentaria que o aumento dos lucros seria uma conseqüência não somente pela diminuição direta das DORT/LER, mas por um envolvimento dos funcionários por perceberem efetivamente a valorização do ser humano contribuindo para amenizar todos os efeitos nocivos de um clima organizacional inadequado, que é o que mais se vê hoje em dia nas empresas voltadas para um lucro sem limites. Mas, deve ficar claro que essas mudanças só ocorrem quando os programas implantados forem feitos de forma correta, contínua e associados às adaptações ergonômicas necessárias no ambiente de trabalho e não somente para constar no “Marketing” da empresa.

 

“valorização do ser humano contribuindo para amenizar todos os efeitos nocivos de um clima organizacional inadequado”

 

 

Quais são os tipos de ginástica laboral?

Basicamente, consideramos três tipos:

A de aquecimento ou preparatória, normalmente é feita antes da jornada de trabalho, num local que agregue o maior número de trabalhadores juntos e dura de 8 a 30 minutos. Visa preparar o corpo de forma física e mental para jornada o dia.

A chamada pausa ativa ou ginástica compensatória, feita nos intervalos durante a jornada de trabalho. Pode durar de 3 a 15 minutos e deve ser adaptada às atividades específicas do trabalhador e preferencialmente no seu local de atuação. Visa recuperar as energias, aumentar a motivação e concentração.

A de relaxamento, feita no final da jornada de trabalho, pode durar de 5 a 15 minutos, visando principalmente diminuir os efeitos deletérios da sobrecarga de trabalho e melhorar a auto-estima do trabalhador.

 

 

Como deve ser a elaboração de um PGL dentro de uma instituição hospitalar?

O ambiente de um hospital é considerado um dos mais complexos para a execução de um programa de ginástica laboral, por vários aspectos: são muitas atividades diferentes, com particularidades de prevenção bem distintas, por exemplo, ao mesmo tempo em que existem profissionais (da saúde) que permanecem muitas horas em pé, existem setores onde a atuação é sentada e de frente para um computador. Além da dinâmica de trabalho envolver um estresse contínuo e situações de emergência que dificultam a pausa durante a jornada de trabalho. Na experiência que eu tive, procuramos realizar a ginástica compensatória adaptada para os diferentes setores, mas hoje eu penso que talvez a ginástica de relaxamento pudesse trazer um benefício maior e uma maior adesão por parte dos profissionais da saúde, principalmente dos setores de emergência, centro cirúrgico e UTIs. Além de sentir a necessidade de agregar ao programa outras ações de promoção da saúde e prevenção de doenças, tais como palestras, orientações e estímulo às mudanças de hábitos.

 

 

Como se dá a abordagem com os funcionários da empresa para a adesão ao programa?

Inicialmente é feita uma apresentação que pode ser teórico/prática, para os trabalhadores explicando o que são as DORT/LER e as consequências que podem trazer para os trabalhadores, fala-se dos benefícios que as atividades de qualidade de vida e promoção da saúde podem trazer, mostrando principalmente o quanto algumas práticas diárias contribuem para melhorias para o resto da vida. Com isso tenta-se envolver o trabalhador para ser participativo no programa.

 

 

E o que pode ser feito para estimular a adesão desses funcionários?

Se o programa for bem desenvolvido e realmente identificar a preocupação da empresa com o trabalhador a adesão é automática. Quando o nível de conscientização do trabalhador é mais difícil, pode-se usar outros benefícios como ganhar folgas de acordo com a participação. Pessoalmente eu sou contra essas atitudes, pois acredito que o programa de ginástica laboral ou qualquer outro que vise à qualidade de vida e promoção da saúde deve ser de total liberdade de adesão e esta é a melhor forma de se identificar, se realmente o trabalhador está comprometido e sentindo os benéficos para si e para a empresa.

 

 

Todos os funcionários podem participar de um mesmo programa?

A princípio sim, porém na prática, pelo tempo e pela dinâmica do local de trabalho talvez o melhor seja uma adequação para cada particularidade, por exemplo: quem fica muitas horas em pé deve priorizar alongamentos da coluna lombar, pernas e a circulação de retorno dos membros inferiores; já quem atua muito sentado e com computadores deve trabalhar movimentos de braços, mãos e pescoço. A flexibilidade de um programa é uma das ferramentas para que os resultados sejam melhores.

 

 

Quanto tempo ele dura e o ideal é que seja quantas vezes na semana?

A duração do programa pode variar, como já exposto anteriormente, porém sabe-se que os efeitos fisiológicos do exercício exigem no mínimo cinco minutos de aquecimento. Esse tempo pode ser adaptado de acordo com o objetivo (preparar, compensar ou relaxar). Não existem definições específicas para o local e a quantidade de pessoas, pois a ginástica é realizada dentro do ambiente de trabalho, onde normalmente é o fisioterapeuta ou o educador físico quem se dirige e desloca-se nos diferentes locais da empresa para a execução da atividade. Melhor seria a atividade ser diária, mas considera-se de 2 a 3 vezes por semana um programa adequado, desde que o próprio funcionário continue com a atividade nos outros dias por iniciativa própria.

 

“A flexibilidade de um programa é uma das ferramentas para que os resultados sejam melhores”

 

 

Para conferir os resultados da ginástica laboral existe algum tipo de avaliação periódica?

O ideal para se avaliar os resultados de um programa é justamente colher dados iniciais e após um tempo de implantação do mesmo, no mínimo seis meses, associados com os dados de absenteísmo e licenças médicas da empresa, de forma comparativa. Esse é um dos grandes desafios, pois ainda faltam estudos que comprovem de forma eficaz os resultados da ginástica laboral, pois existem muitas interfaces que dificultam essa análise: Considera-se ainda um problema, a dificuldade de se fazer um diagnóstico precoce das lesões que realmente são decorrentes da atividade laboral, depois, o ideal seria tentar evitar que esse quadro seja instalado, ou seja, atuar na prevenção do problema a não quando ele já se instalou. Outro fator que dificulta é justamente a continuidade do programa, onde muitas vezes após um tempo de implantação a própria empresa interrompe esse investimento. E finalmente, para que essa avaliação seja fidedigna o programa implantado deve ser coerente com a proposta inicial e não ser apenas uma atividade de fachada, o que na prática, os trabalhos publicados mais recentemente. Sinalizam como sendo preocupante.

 

 

Quem apresenta mais problemas ocupacionais, as pessoas que trabalham sentadas ou em pé?

Eu não tenho conhecimento de dados estatísticos que mostrem essa diferença, mas creio que os problemas sejam de origem diferente, com lesões diferentes. Os resultados que existem são mais voltados para as atividades sentadas por longo período, até pela característica de perda dos movimentos dos grandes grupos musculares, mas comparativamente desconheço se existem estudos a respeito.

 

 

Quais são os exercícios mais indicados para os profissionais da enfermagem?

Os profissionais da enfermagem exercem suas atividades por um longo período em pé, e portando, as mulheres devem se preocupar em evitar o uso de salto alto acima de 5 cm, pois provocam encurtamentos da musculatura posterior dos membros inferiores (MMII) e da coluna, além de deslocarem o ponto de equilíbrio na posição ereta o que é causa de algias frequentes. Devem compensar com o fortalecimento da musculatura abdominal, justamente para evitar esse desequilíbrio. Por permanecer muitas horas nessa posição, e sob grande estresse em muitas vezes, é ideal que o profissional da enfermagem realize alongamentos de toda a musculatura, desde pescoço, coluna e MMII. Também é fundamental que tenha a possibilidade de sentar durante a execução de algumas atividades, tais como escrever relatórios etc., de forma adequada, com apoio da coluna e braços. Que agreguem às suas práticas diárias atividades de lazer e relaxamento, pois atuam sob grande estresse em muitas vezes. Outra dica é associar conceitos de ergonomia no seu ambiente de trabalho, colocando os materiais de uso freqüente e contínuo em locais de fácil acesso e sem exigir o uso de escadas, bancos ou até mesmo ter que se abaixar várias vezes para pegar esse material. E acrescento que é importante que as mulheres usem meia elástica para evitar varizes, trombose e edemas circulatórios.

 

“é ideal que o profissional da enfermagem realize alongamentos de toda a musculatura, desde pescoço, coluna e MMII”

 

 

E quais são os principais sintomas típicos de profissionais da enfermagem que podem ser aliviados com um programa de ginástica laboral?

As dores lombares, na região cervical, nos MMII. Além do estresse natural, até mesmo decorrente de jornadas duplas de trabalho, o que gera agravantes nas conseqüências dessa má-postura. Esse é outro aspecto que dificulta a identificação de lesões de um ambiente de trabalho, pois a maioria dos profissionais tem jornada dupla. Fica a dúvida: a causa foi deste ou do outro local de trabalho? E os aspectos emocionais e de estresse também são decorrentes desta jornada dupla.

 

 

Quais dicas a senhora pode transmitir aos profissionais de enfermagem para que, mesmo sem um programa de ginástica laboral, possam relaxar movimentar-se e ter um pouco mais de qualidade no trabalho?

- Incorpore mudanças de hábitos de vida diária, com a prática de alguma atividade física, mesmo sem tempo, dinheiro ou condições outras, todos nós podemos andar 1 ou 2 quarteirões todos os dias, desça um ponto de ônibus antes e isso evitará outras doenças cardiovasculares.

- Faça uma pequena pausa de 5 minutos a cada 2 horas de trabalho e alongue, pescoço, braços e pernas (pode ser em qualquer cantinho de trabalho, mas faça de maneira concentrada).

- Respire profundamente e expire lentamente pelo menos 5 vezes em cada pausa de 2 horas. A oxigenação ajuda na concentração e no alívio do estresse.

- Procure não deixar emoções negativas dominarem o seu dia. Tenha uma atitude pró-ativa, pense e mentalize ações positivas, ela ajudarão a enfrentar situações adversas.

- Por fim você é o maior responsável pela sua própria vida! Aja de forma a buscar o melhor, isso só depende de QUERER FAZER!

 

 

A senhora teria dados estatísticos sobre afastamento de funcionários por motivos que poderiam ser aliviados com este programa?

Não tenho e este é ainda um dos grandes desafios de todas as empresas e profissionais que atuam nessa área, por todas as particularidades e indefinições de resultados, que a prática da ginástica laboral ainda traz no nosso país. Talvez daqui a alguns anos tenhamos dados que evidenciem esses resultados de forma positiva.

 

 

Qual deve ser o perfil do profissional que trabalha com ginástica laboral?

Esse é outro aspecto que gera polêmicas, pois, por ser uma atividade ainda recente no nosso meio, também não existem definições exatas de quem deve executá-la e vemos tanto fisioterapeutas, como educadores físicos atuando. Porém o pior é a evidência da existência de outros profissionais sem nenhuma formação específica atuando na prática, o que contribui e muito para que os resultados sejam subavaliados e sem critérios técnicos de execução, o que também pode aumentar as lesões de práticas inadequadas de movimentos.

De qualquer forma, o profissional que atua com ginástica laboral deve ter algumas habilidades e competências essenciais para esse tipo de atividade: ser dinâmico, criativo, ter boa comunicação interpessoal, responsabilidade, percepção do todo e capacidade de adaptação para diferentes atividades.

Durante a prática de um programa de ginástica laboral é preciso “sentir” o momento e o local de trabalho, associando atividades ora mais ora menos dinâmicas de acordo com essa percepção. Utilizar recursos lúdicos, tais como bola, faixas, bastão, música etc. para evitar uma desmotivação decorrente de uma rotina até mesmo da própria atividade.

 

 

A Fisioterapeuta Conceição Boueri disponibilizou um vídeo com orientações ergonômicas que poderão ser muito úteis aos profissionais da Enfermagem.

Confira!





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4/4/2011 - Carlos Canhada Sao Paulo-SP
Olá Ciça... Que belissima entrevista!Parabéns pela matéria. Sei o quanto programas como este por exemplo, pode representar na melhor qualidade de vida dos profissionais de saúde. Além, com certeza (vivemos isso), lembra? das inúmeras melhorias proporcionadas a própria instituição de trabalho por meio do clima organizacional. Um fortissimo abraço! MUITO BOM lhe reencontrar em um canal como este. Carlos Canhada


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