São Paulo, 24 de September de 2017
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Indicadores da Saúde | Cristiane Pavanello

Enfermeira, mestre e doutora em enfermagem pela Universidade de São Paulo-USP. Atuou como especialista em serviços profissionais da divisão de Infection Prevention-Assespia da 3M do Brasil e responsável pelo SCIH do Hospital Samaritano (SP). Docente de Pós-Graduação. Consultora independente em saúde e sócia diretora da Pavanello Saúde Consultoria e Assessoria em Saúde. Autora e Organizadora do livro “Qualidade em Saúde e Indicadores como Ferramenta em Gestão. - Email: cris_pr_silva@hotmail.com

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PCIRAS e a importância dos indicadores

A assistência em saúde de má qualidade pode ter resultados desastrosos, com eventos adversos importantes como as infecções relacionadas à assistência à saúde (IRAS), que precisam ser prevenidas, controladas e avaliadas por meio de ferramenta gerencial, que possibilite intervir e melhorar a qualidade da assistência prestada.

A organização de saúde deve estabelecer uma política com diretrizes claras, para que ações de controle de IRAS sejam realizadas de forma padronizada, tanto pelos membros executores do Serviço de Controle de Infecção (SCIRAS), como pelos membros consultores da Comissão de Controle de Infecção (CCIRAS), que deve estabelecer um Programa de Controle de Infecção (PCIRAS) claro, pautado nas legislações vigentes e em boas práticas de saúde com evidências científicas e, principalmente, de acordo com as necessidades operacionais da organização, dando assim factibilidade ao programa.

Conforme citado no Manual Internacional de Padrões de Acreditação Hospitalar – Joint Comission International (JCI) e Consórcio Brasileiro de Acreditação (CBA) e Serviços de Saúde, “A meta de programa de vigilância, prevenção e controle de infecção em uma instituição consiste em identificar e reduzir os riscos de adquirir e transmitir infecções entre pacientes, funcionários, médicos, trabalhadores contratados, voluntários e visitantes. O programa de controle de infecção pode diferir de uma instituição para outra, dependendo da localização, do volume de pacientes, da população atendida, do tipo de atividades clínicas e do número de profissionais da instituição; programas eficazes identificam os dirigentes responsáveis, as políticas e procedimentos apropriados, a educação dos profissionais e a coordenação na instituição”.

O PCIRAS, quando estruturado baseado na gestão da qualidade total (GQT), deve possibilitar e contemplar o planejamento das ações de controle, a coleta e a organização dos dados, como produto final, produzindo indicadores que permitam avaliar também outros sub-processos assistenciais envolvidos, retroalimentando todo o processo de controle de IRAS. 

Assemelhando-se ao PCIRAS, uma ferramenta importante e muito utilizada no GQT é o PDCA (Plan, Do, Check, Action) planejar, executar, avaliar e corrigir; a expressão “rodar o PDCA” é frequentemente usada a fim de definir o processo gerencial sistêmico, que inicia com o planejamento das ações, com foco no objetivo global, passando pela execução e avaliação dos resultados, com retomada do planejamento para correção dos rumos do processo.

Na fase do planejamento (Plan), o PCIRAS deve estabelecer quais os processos que serão monitorados, tais como IRAS de sítio cirúrgico, de corrente sanguínea, e outras topografias; consequentemente, quais os setores envolvidos que serão monitorados também (setores de risco), prevendo assim toda estrutura necessária para tal. Ainda na fase de planejamento é necessário estabelecer quais taxas serão elaboradas, que funcionarão como indicadores. Também é preciso definir que tipo de indicador deve ser elaborado (sentinela, processo, estrutura, resultado etc.), uma vez que o indicador é fundamental como instrumento de mensuração do processo, a fim de avaliar se os objetivos propostos foram alcançados.

Na fase de coletar e organizar os dados investigados (Do), o PCIRAS deve estabelecer quem irá coletar os dados, qual será a fonte, a estratégia e a frequência, o tamanho da amostra e como será feita a análise dos dados. Assim a escolha da forma de vigilância epidemiológica e os critérios clínicos e científicos para definição de IH devem nortear todas estas questões.

Para a fase de análise dos indicadores (Check), o PCIRAS deve estabelecer qual ferramenta estatística será utilizada, a fim de que os resultados encontrados sejam confiáveis, permitam a investigação das causas e implantação de melhorias, além de possibilitar comparações internas e externas, reiniciando todo o processo de controle de IRAS. Também nesta fase o PCIRAS deve estabelecer quais os relatórios serão elaborados e formas de divulgação, assegurando a continuidade da informação nos diversos níveis gerenciais.

Quando já na fase de agir para corrigir (Action), que na realidade acontece concomitante com a anterior (Check), o PCIRAS deve prever ações de intervenção e de educação, para correção das causas identificadas e prevenção de outras.

Exemplo de aplicação prática:

PDCA – Análise do Indicador de Infecção Primária de Corrente Sanguínea - Reduzir índices de infecção de corrente sanguínea     
Data início: __/__/__
Data Conclusão: ___/__/__    Grupo de Trabalho:

PDCA

FLUXO

ETAPA

OBJETIVO

Plan

1

Identificação do Problema

1.1- Reduzir índices de infecção de corrente sanguínea.
1.2- Melhorar a qualidade e segurança dos materiais utilizados. 
1.3- Desenvolver um protocolo institucional de TIV - terapia intravenosa e Passagem de PICC.

2

Observação

 2.1- Foram analisadas as ocorrências de infecção de corrente sanguínea e observado as técnicas de passagem e manutenção dos cateteres venosos.

3

Análise

3.1-Verificadas falhas na técnica de passagem, na técnica de curativo e na qualidade de materiais.
3.2-Falta de padronização e indicação correta dos curativos.
3.3-Dificuldade técnica na realização do curativo pela equipe de enfermagem.
3.4-Verificada falta de critérios de indicação de passagem de cateter, do tipo do cateter e da manutenção e tipo de curativo. 

4

Plano de ação

4.1- Apresentar o plano de trabalho para a Sup. Médica para obter apoio e envolver médicos vasculares, clínicos e Intensivistas na implantação e manutenção do protocolo.
4.2- Determinar a realização do curativo de cateter venoso central pelo enfermeiro.
4.3- Grupo 1- Analisar os materiais e equipamentos disponíveis buscando a melhoria da qualidade destes.
4.4- Grupo 2 - Desenvolver um protocolo institucional para TIV e Passagem de PICC. 
4.5- Treinar todos os colaboradores. 

Do

5

Execução

5.1- Implantar o protocolo de TIV  e Passagem de PICC.
5.2- Divulgar o Protocolo Institucional junto a Sup. Médica, Comunicação e Treinamentos. 

Check

6

Verificação

6.1- Acompanhar a adesão ao protocolo através de observação e auditoria de processo.
6.2- Acompanhar a evolução dos indicadores após implantação do Protocolo.

Action

7

Padronização

7.1- Padronizar o protocolo e registrar no Plano de Melhoria
7.2 - Inserir o Protocolo Institucional de TIV e Passagem de PICC nos POPs e Protocolo Clínico. 

8

Conclusão

8.1- Reavaliar periodicamente e atualizar o Protocolo Institucional de TIV e Passagem de PICC seguindo as normas do INS, FDA e CDC.



No Brasil existe exigência legal para o estabelecimento de PCIRAS, a Lei 9341/1997 do Ministério da Saúde (MS), sendo que a Portaria MS 2616/1998 estabelece recomendações para a formação deste, enquanto que a resolução RDC nº 48/2000 estabelece roteiro de inspeção de PCIRAS. Porém, ações fiscalizadoras não são suficientes para a mudança do paradigma, de que o PCIRAS é somente um instrumento burocrático. É sabido que nem todos os hospitais possuem um PCIRAS e quando o fazem a efetividade destes, no propósito de controlar as IRAS e alcançar melhorias reais da assistência de saúde prestada, é ainda desconhecida. No entanto, a força que um PCIRAS tem como ferramenta de trabalho em qualidade é evidente quando colocados em prática por dirigentes conscientes e sensibilizados para um modelo de saúde holístico que tem o seu cliente como foco central.

Pedimos a gentileza de citar a referência:
Silva C.P.R. PCIRAS e a importância dos indicadores [Internet] 2015 [citado 2015 Agosto 31]. Disponível em http://www.portaldaenfermagem.com.br

Referências Bibliográficas:
1. Couto R C, Pedrosa T M G. Hospital- Gestão Operacional e sistemas de Garantia de Qualidade, Viabilizando a Sobrevivência. Cap. 5, p.145-63. RJ: MEDSI, 2003.
2. Manual Internacional de Padrões de Acreditação Hospitalar. Consórcio Brasileiro de Acreditação de Sistemas e Serviços de Saúde. RJ: UERJ, CEPESC, 2003.
3. Brasil, Presidência da República. Lei nº 9341, de 6 de janeiro de 1997. Brasília: Diário Oficial da União, 07 de janeiro de 1997.
4. Brasil, Ministério da Saúde. Portaria 2616 de 12 de maio de 1998. Brasília: Diário Oficial da União, 13 de maio de 1998
5. Brasil, Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Resolução de Diretoria Colegiada n.48 de 2 de junho de 2000. Brasília (DF): Agencia de Vigilância Sanitária 2000.

Comentários

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Por: Samora Agostinho Cá filósofo

  1. Comentado em:

    Legal adorei o seu trabalho meus votos d parabéns pelo trabalho e espero q vc continue escrevendo aos profissionais d saúde e assim como a nova geração nessa nossa profissão

Por: Eliana nascimento

  1. Comentado em:

    Parabèns pelo seu trabalho cristiane pavarelo eu conheço vc do hospital samaritano e uma otima profissional